Como ler mais? Comece tentando ler menos

Eva
Autora do Blog

Existe uma cena bastante comum na vida de quem gostaria de ler mais.
A pessoa compra um livro.
Coloca na cabeceira.
Lê vinte páginas no primeiro dia, oito no segundo e nenhuma no terceiro. Depois passa algumas semanas olhando para ele antes de dormir, como quem mantém uma amizade à distância.
Em determinado momento, o livro sai da cabeceira e vai para a estante. Tecnicamente, continua muito próximo. Intelectualmente, está em outro continente.
Então vem a conclusão:
“Eu preciso criar o hábito de ler mais.”
A frase parece correta. Talvez o problema esteja justamente nela.
Porque, quando pensamos em ler mais, quase sempre pensamos em quantidade. Mais páginas, mais livros, mais velocidade, mais metas. Começamos a tratar a leitura como tratamos os passos do relógio: se não bateu dez mil, parece que o dia não valeu.
Só que ler não é passar os olhos por palavras. Se fosse, bula de remédio entraria como literatura.
Ler é acompanhar o pensamento de outra pessoa por algum tempo.
E isso muda bastante a conversa.
O primeiro segredo para ler mais é parar de ter tanta pressa
Há uma ideia simples e um pouco provocadora sobre leitura: para aprender a ler, é preciso ler devagar.
À primeira vista, parece um péssimo conselho para alguém que quer ler mais.
É quase como ensinar alguém a chegar mais rápido dizendo:
“Vá mais devagar.”
Mas pense no que acontece quando você lê depressa demais.
Você termina a página, passa para a próxima e, três minutos depois, percebe que não saberia explicar direito o que acabou de ler.
Os olhos trabalharam.
O polegar virou a página.
O cérebro ficou em home office.
Então você precisa voltar.
Ou pior: não volta. Continua até o fim, fecha o livro e diz que achou “interessante”.
“Interessante” é uma palavra extremamente útil para livros dos quais não lembramos quase nada.
A pressa produz uma estranha ilusão de progresso. Você avança pelo livro sem necessariamente permitir que o livro avance por você.
Por isso, ler lentamente não significa levar seis meses para terminar um romance. Significa dar à frase o tempo necessário para cumprir seu trabalho.
Encontrou uma ideia boa? Pare.
Não entendeu? Volte.
Uma frase mexeu com você? Leia novamente.
Parece que você está lendo menos.
Na verdade, talvez seja a primeira vez que esteja realmente lendo.
Não leia para terminar
Uma boa parte da ansiedade de leitura nasce de uma pergunta aparentemente inocente:
“Quantos livros você leu este ano?”
É curioso porque fazemos essa pergunta sobre livros, mas não sobre quase nada que realmente importa.
Ninguém pergunta:
“Quantas conversas profundas você teve este ano?”
“Quantas ideias mudaram sua cabeça?”
“Quantas vezes você percebeu que estava errado?”
Mas livros ganharam contador.
E, quando existe contador, nós humanos damos um jeito de transformar prazer em campeonato.
Uma pessoa lê quinze livros e sente culpa porque alguém no Instagram leu quarenta e sete. Talvez o cidadão tenha lido quarenta e sete excelentes livros. Talvez tenha desenvolvido apenas uma enorme habilidade de fotografar capas.
Não sabemos.
O número sozinho diz muito pouco.
Um livro não precisa ser terminado para ter valido a pena. Também não merece ser terminado apenas porque começou.
Existem livros que ficam melhores quando lidos lentamente. Existem livros que não sobrevivem a uma leitura lenta.
Isso também é informação.
Se, quando você desacelera, percebe que o livro repete a mesma ideia pela décima terceira vez com palavras diferentes, talvez seu problema não seja falta de disciplina.
Talvez o livro já tenha acabado e o autor ainda não percebeu.
Abandonar um livro ruim pode ser uma excelente estratégia para ler mais livros bons.
Leia com continuidade, mesmo que leia pouco
Existe outra armadilha: imaginar que qualquer cinco minutos espalhados pelo dia produzem o mesmo tipo de leitura.
Às vezes produzem.
Mas certos livros precisam de continuidade.
Você lê dez páginas hoje, doze na quinta, seis no domingo e mais oito na quarta-feira seguinte. Quando retorna, passa as três primeiras páginas tentando lembrar quem era Augusto e por que ele estava tão irritado.
A leitura existe, mas nunca chega a ganhar embalo.
É parecido com assistir a um filme em intervalos de sete minutos durante duas semanas. No final você talvez saiba que gostou. Só não saberá exatamente do quê.
Isso não significa que você precise reservar tardes inteiras numa poltrona de couro diante de uma lareira enquanto chove do lado de fora. A vida raramente oferece tamanha cooperação estética.
Significa apenas proteger algum espaço em que a leitura possa continuar tempo suficiente para você entrar nela.
Vinte ou trinta minutos de atenção valem mais do que pequenas migalhas de leitura misturadas a mensagens, notificações e outras interrupções.
O importante não é construir uma cerimônia perfeita.
É não precisar reapresentar o livro a você mesmo toda vez que abri-lo.
Um dos maiores inimigos da leitura é a própria vida
É confortável dizer que não lemos porque não temos tempo.
E, em muitos casos, é verdade.
Trabalho, família, estudo, esporte, compromissos e todas as pequenas tarefas necessárias para manter uma vida funcionando ocupam espaço.
Mas existe uma observação interessante: algumas das coisas que mais dificultam a leitura não são ruins.
São simplesmente a vida acontecendo.
O problema é que a vida ativa sempre parece mais urgente do que a vida contemplativa.
Responder parece mais urgente do que pensar.
Resolver parece mais urgente do que refletir.
Conversar parece mais urgente do que ficar em silêncio.
Quando percebemos, estamos extremamente ocupados e um pouco desabastecidos.
Talvez por isso a leitura precise menos de “tempo livre” e mais de tempo protegido.
Tempo livre tem uma característica desagradável: alguém sempre consegue ocupá-lo.
Se você pretende ler apenas quando não houver mais nada para fazer, tenho uma notícia difícil.
Sempre haverá alguma coisa para fazer.
A casa possui uma capacidade quase sobrenatural de fabricar tarefas.
O trabalho também.
E o celular nem precisa de ajuda.
Por isso, quem lê regularmente não necessariamente possui mais tempo. Muitas vezes apenas decidiu que uma parte pequena daquele tempo não será negociada com qualquer coisa que aparecer.
Pare de transformar todo livro numa prova
Existe ainda outro inimigo curioso da leitura: o desejo de julgar rápido demais.
Abrimos um livro e, antes de tentar compreender o que o autor está dizendo, já estamos ocupados decidindo se concordamos.
“Não concordo.”
“Isso está ultrapassado.”
“Ele generalizou.”
“Já ouvi isso.”
Pode até ser verdade.
Mas existe uma ordem melhor.
Primeiro entre no raciocínio.
Depois discuta com ele.
Um bom leitor consegue fazer algo intelectualmente difícil: dar ao autor uma vantagem temporária.
Durante algum tempo, tenta compreender a ideia da melhor maneira possível. Não procura imediatamente o erro. Não lê esperando a primeira oportunidade de mostrar que poderia ter escrito um livro melhor.
Só depois liga novamente o crítico.
É uma conversa muito mais interessante.
Imagine alguém que, enquanto você explica uma ideia, interrompe cada frase para dizer por que você está errado.
Agora imagine passar trezentas páginas sendo essa pessoa.
Cansa até o livro.
Ler bem exige uma espécie de simpatia provisória: “Deixe-me entender aonde você quer chegar.”
Depois você pode discordar à vontade.
Inclusive com muito mais qualidade.
E existe o inimigo mais elegante de todos: querer parecer inteligente
Algumas pessoas têm dificuldade de gostar de um livro muito popular porque todo mundo gosta.
Outras só começam a lê-lo depois que todo mundo gosta.
São problemas opostos produzidos pela mesma criatura: nosso maravilhoso ego.
Existe quem precise descobrir primeiro o que os críticos acharam, qual nota o livro recebeu e se pessoas consideradas inteligentes deram autorização pública para apreciá-lo.
Existe também quem tenha prazer especial em não gostar daquilo que todos admiram.
É o leitor que termina uma obra-prima com uma satisfação secreta:
“Não achei tudo isso.”
Pode ser que realmente não tenha achado.
Mas às vezes existe um prazer curioso em não ser conquistado.
É uma maneira sofisticada de sair de um encontro dizendo:
“Ela até tentou me seduzir, mas comigo não.”
Só que leitura exige alguma vulnerabilidade.
Para admirar uma frase, você precisa aceitar que outra pessoa escreveu algo que gostaria de ter escrito.
Para mudar de opinião, precisa admitir que chegou ao livro sabendo menos do que sabe agora.
Para se emocionar, precisa deixar que alguém que talvez tenha morrido há duzentos anos consiga apertar alguns botões dentro de você.
É uma atividade perigosíssima para o orgulho.
Talvez por isso seja tão boa.
Quer ler mais? Releia
Essa provavelmente é a dica mais estranha de todas.
Se quero ler mais livros, por que gastaria meu tempo lendo novamente um que já li?
Porque reler também é ler mais.
E, muitas vezes, é ler melhor.
Na primeira leitura existe inevitavelmente alguma pressa. Num romance, queremos descobrir o que acontece. Num livro de ideias, queremos descobrir aonde o autor pretende chegar.
Na segunda vez, essa ansiedade diminui.
Você começa a perceber outra coisa.
A construção.
Os detalhes.
As frases.
As ideias que estavam lá e passaram despercebidas porque você estava correndo atrás da próxima página.
Na primeira leitura entramos na casa.
Na segunda começamos a reparar nos móveis.
Há ainda outra coisa bonita na releitura: o livro pode ser o mesmo, mas o leitor não é.
Um livro que você leu aos vinte anos encontra uma pessoa diferente aos quarenta.
Você viveu coisas.
Errou.
Perdeu.
Aprendeu.
Mudou de opinião.
Aquilo que não significava nada antes pode, de repente, parecer escrito para você.
E aquilo que parecia revolucionário talvez hoje pareça apenas um rapaz de vinte anos falando alto dentro da sua cabeça.
Reler um livro é também reler quem você era.
Talvez por isso algumas releituras sejam tão surpreendentes.
O autor não acrescentou uma linha.
Quem escreveu páginas novas foi você.
No fim, ler mais talvez seja outra coisa
Talvez nossa obsessão pela quantidade tenha colocado a pergunta errada.
Em vez de:
“Como faço para terminar mais livros?”
Talvez devêssemos perguntar:
“Como faço para ter mais livros realmente presentes na minha vida?”
A resposta é menos impressionante para colocar numa planilha.
Leia um pouco mais devagar.
Escolha melhor.
Não tenha medo de abandonar o que não merece seu tempo.
Crie continuidade.
Dê uma chance ao autor antes de começar a brigar com ele.
Volte aos bons livros.
E pare de tratar a última página como linha de chegada.
Um livro não foi feito para que você consiga dizer que o terminou.
Foi feito para que alguma coisa aconteça entre a primeira página e você.
Se isso acontecer em dez livros durante o ano, excelente.
Se acontecer em cinco, também.
Porque talvez o verdadeiro leitor não seja aquele que consegue passar por mais livros.
É aquele que permite que alguns livros passem por ele.

Eva
Autora do Blog

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